
Arte original a nanquim de Michelle Mafra.
Quanto mais tempo passo no mundo cripto, mais ele me lembra algo muito mais antigo que a internet: a governança tribal. O universo das criptomoedas não é uma única nação com um único governante. É uma floresta cheia de tribos, cada uma com sua própria língua, suas regras, seus líderes e suas crenças. E, como em toda floresta, nem toda tribo vai sobreviver.
Sou brasileira e visito a Bahia todos os anos. Também tive o privilégio de ter contato com o povo Yanomami. Essas experiências me ensinaram que as tribos não estão congeladas no passado. São comunidades vivas e soberanas, que fazem escolhas sobre o seu futuro todos os dias, exatamente o que estamos tentando construir no mundo cripto.
Três pilares de uma tribo viva
Os projetos que vão durar serão os mais parecidos com sociedades tribais fortes, construídas sobre três pilares:
- Soberania: o projeto controla o seu próprio território, o seu código, o seu tesouro e o seu futuro.
- Autogoverno: as decisões nascem de dentro, por meio das suas próprias regras e dos seus próprios conselhos.
- Controle da comunidade: as pessoas que vivem no ecossistema têm voz de verdade sobre o rumo que ele toma.
Os projetos construídos sobre esses pilares, os verdadeiramente descentralizados, são os que continuam vivos hoje. São também os mais capazes de "explodir" neste ecossistema em desenvolvimento. Os projetos sem controle da comunidade vão sobreviver de outro jeito: como ferramentas, usadas por muitas outras tribos, mas nunca realmente governadas pelo seu próprio povo.
Maxis serão sempre maxis
Toda floresta tem tribos que escolhem viver à parte. Os maximalistas do Bitcoin podem escolher nunca se misturar com outras tribos, protegendo o seu território e as suas tradições. Esse é um direito deles, e existe força nisso.
Outras pessoas vão entrar e sair do ecossistema Bitcoin livremente, mergulhando em novos tokens pela usabilidade, negociando, construindo e trazendo de volta o que aprenderam.
Lições da Amazônia
A Amazônia nos mostra todos os caminhos:
- As tribos que escolhem o isolamento. O Vale do Javari, no Brasil, abriga mais povos isolados do que quase qualquer outro lugar da Terra. Eles protegem o seu modo de vida ficando à parte, como os maxis mais puros. A sobrevivência deles depende de o seu território continuar protegido. Em 2011, a FUNAI divulgou raras fotos aéreas de um desses grupos isolados (veja as fotos no The Week, crédito: Gleison Miranda/FUNAI/Survival).
- As tribos que adotam novas ferramentas sem perder a identidade. Os Paiter Suruí, liderados pelo cacique Almir Suruí, fizeram uma parceria com o Google Earth para mapear as suas terras e denunciar a extração ilegal de madeira, e depois criaram um projeto de carbono florestal. Eles usaram a nova tecnologia para defender a sua soberania, não para entregá-la. É exatamente isso que as melhores comunidades cripto fazem.
- As tribos que se organizam e falam por si mesmas. Povos como os Kayapó ficaram famosos por levar as suas próprias câmeras e a sua própria voz para o mundo. Na linguagem cripto, eles tinham a sua própria governança e a sua própria mídia.
A sobrevivência do mais apto, e dos que evoluem
No fim, tudo se resume à sobrevivência do mais apto. E os mais aptos não são os mais fortes nem os mais barulhentos. São as tribos capazes de evoluir junto com a tecnologia ao longo do tempo, sem perder a sua alma.
A pergunta para todo projeto e todo holder é: que tribo você está construindo, e ela ainda estará de pé quando a floresta mudar? 🌿
Minhas opiniões são pessoais e não são recomendação de investimento.
Fontes: Cacique Almir e a tribo Suruí (Google) · Google helps protect Amazon rainforest (Mongabay)